É para mim uma honra, além de um grande prazer, apresentar a primeira mostra individual, em Roma, de Henrique Luiz de Carvalho, na galeria Eliseo. Inscrito na Rome Univercity of Fine Arts, livre Academia de Belas Artes, legalmente reconhecida e por mim presidida, na qual realizou o curso de pintura do professor Túlio de Franco. Henrique mostrou-se imediatamente, um aluno sensível e rico daquele entusiasmo que é dote fundamental para quem deseja desafiar hoje a vida de artista. Caminhando pelas ruas de Roma, observando à sua volta, Henrique compreendeu que esta cidade tinha segredos que revelava a poucos. Henrique desejou ser um entre os poucos. Criou uma técnica toda sua, aquela que Guglielmo Gigliotti, docente de história da arte da Rufa, definiu no texto deste catálogo como “Frottage Urbano”. Ou seja uma pintura, que germina da impressão de um modelo que, sob tela espalmada, revela os relevos da pavimentação urbana, em particular dos célebres sampietrinos, privilegiados pelo artista. Nasce, então, uma arte que funde pintura e ambiente urbano, numa síntese original que as obras em exposição testemunham.
Esta de Henrique não é a primeira mostra de alunos da recém nata Rufa, outras a precederam, seja em sedes externas, seja no próprio espaço expositivo da Academia de arte da via Benaco. E era exatamente o meu sonho, devo admitir, este de poder ver uma Academia crescer a pari passo com os seus alunos.
O cenário da arte contemporânea ilumina hoje as obras de pintura de Henrique Luiz de Carvalho, artista brasileiro de seguro talento, o qual, depois de haver efetuado os estudos acadêmicos no seu país de origem, há sentido a exigência de vir a Itália, berço mundial da arte, para fazer um máster nos âmbitos disciplinares das artes plásticas.
A tal fim o artista há frequentado com notável proveito, a “Rome Univercity od Fine Arts” conquistando uma preciosa experiência profissional, tal a coloca-lo em grado de poder perseguir uma sua linha de pesquisa artística.
Os frutos de tal pesquisa se revelam na interessante mostra individual denominada, “Frottage Urbano di Henrique Luiz de Carvalho”, em curso a Roma de 06 à 20 de março de 2001.
A mostra acontece nas salas expositivas do centro de estudo brasileiro, gentilmente concedidas pela “Embaixada do Brasil” que promoveu a manifestaçãoartística em colaboração com a “Rome Univercity od Fine Arts, libera Academia di Belle Arti di Roma”.
A manifestação colocou em evidência a liberdade expressiva de um artista que partiu da pedra para encontrar a sua peculiar linguagem.
A pedra se identifica com a civilização. É a história do caminho do home. I Dolmen, as pirâmides, os templos gregos, as catedrais, as estradas de tudo o quanto o homem criou com esta m,atéria essencial desafia até agora o tempo.
Com análoga essencialidade Henrique Luiz de Carvalho lê a pedra, constrói percursos, visualiza o Frottage.
A pedra torna símbolo, vida e projeto enigmático de vida. Este material natural dos “Frottage Urbanos” do artista, se anima de formas e luzes, supera a inicial imobilidade e torna dinâmico, interativo.
Para Henrique Luiz de Carvalho a estrada não é somente uma solida de Lages de pedras, é também cor: a obra do pintor que revela pavimentação não e menos construtiva D’aquela do arquiteto que há projetou e do operário que realizou.
A realidade essencial e enigmática das pedras de Roma que o artista mesmo usa como linguagem verbal nos revela o fascínio da sua criatividade e da sua poesia.
Roma, li 6 de marzo de 2001
Da Itália e sua arte, Henrique Luiz de Carvalho tinha ouvido falar desde criança. Uma Itália que se tornava um sonho, no qual vivia imerso.
Antes deste encontro com o sonho, que se revelaria um encontro com o destino. Henrique (que continuaremos a chamar assim, porque no Brasil o sobrenome quase sempre é omitido) tivera chance de dar liberdade á sua sensibilidade para as cores e formas através de obras de pintura. Henrique podia considerar-se satisfeito. Mostras e atenção da imprensa lhe confirmavam que a rota era justa. Entretanto tinha aquele sonho que batia na vidraça e que induzia Henrique a perceber tudo que fazia como prefácio, prólogo, ante câmera de eventos ainda por vir. Aos quarenta anos, a separar Henrique e seu sonho, havia um oceano. Mas, como se sabe, os sonhos podem ser ainda maiores que o mar.
É em agosto de 1998 que o sonho de Henrique inicia a ganhar forma de uma realidade possível, aquela de uma viagem á Itália que logo demonstra-se ia uma viagem em busca de si mesmo. Em Roma, Henrique descobre as belezas de uma cidade única no mundo, frequenta os seus museus, admira as suas suntuosas praças. E o faz caminhando quilômetros e quilômetros, com os olhos bem abertos, mas com aquele sonho no bolso que apesar de tudo não encontrara ainda a sua verdadeira morada. Henrique começa a pensar que sonhou errado. Está na Piazza San Pietro, a colunata berniniana circunda a elipse, o sol e alto, o brasileiro abaixa a cabeça, seu olhar vai ao chão, É assim que Henrique encontra nos poucos metros quadrados daquele pavimento diante de si, aquela fagulha que acenderá altas chamas, permitindo-o de individuar o estimulo para a exploração de um mundo de sinais que indicará para a fantasia ávida do brasileiro a estrada para o mundo dos sinais. A partir daquele momento não será apenas a Piazza Sanpietro, mas também a Piazza Venezia, Via Nazionale, ou os mosaicos cosmatescos de San Crisogno. Mas como apossar-se deste solo pisoteado pelos romanos, como torná-lo sinal e como torná-lo sonho? A técnica é elementar. É o frottage, nobilitado por Max Ernst como instrumento de uma expressividade a rédeas soltas. Um Frottage Urbano, todavia, aquele que realiza Henrique ao estender amplas telas sobre o solo e espalmar calculadas doses de tinta a óleo sobre as marcas em relevo.
E eis que uma simples pavimentação se transforma em linguagem, em código, em alfabeto que esperava um homem sonhador vindo de longe para revelar-se poesia. Para Henrique é a liberação a alegria de um renascimento, a certeza de ter encontrado aquele porto tão procurado. Agora, aquela cabeça baixa é a alavanca que alça o mundo interior de Henrique, porque agora tudo é motivo de estupefação, de maravilha, tudo reencontra o seu senso misterioso, porque, como dizia Breton.” O maravilhoso é sempre belo, não importa qual maravilhoso, ao contrário, não e senão o maravilhoso para ser belo.”
Li esta frase a Henrique e aos outros alunos do curso de Historia da Arte da Rome University of Fine Arts. Academia de arte na qual Henrique havia se escrito para fazer o máster em pintura. Era um curso sobre surrealismo-a vanguarda que descobriu no sonho a face oculta da realidade, Henrique tinha descoberto o frottage urbano há alguns meses e, quis a coincidência se coincidência quisermos convencionalmente chamar, que pouco depois alguém falasse exatamente desta abordagem da realidade que Henrique tinha experimentado sobre a própria carne através do seu sonho, aquele que o havia motivado transpassar o oceano. Isto convence Henrique ainda mais de que o sonho tinha desabrochado na sua vida porque era vida ele próprio. Roma torna-se assim, na biografia do brasileiro, aquele sonho por Paris para os artistas do impressionismo ao surrealismo. E, surrealista por acaso neste início de milênio Henrique tinha se tornado ao escutar o seu sonho e as pedras de Roma que o tinham guardado. Entre ambos estava a lage em travertino da entrada da Rufa,a academia que nos referimos acima, da qual Henrique não hesitou em colher as marcas para torná-las motivo de pintura. As fendas da lage, crespada em vários pontos, desvelaram então a natureza compositiva ali “deixada pelo acaso e pelo destino, manifestando uma beleza misteriosa, a que existe nas coisas, a bem ver, em todas as coisas. Assim, uma simples entrada de edifício, distraidamente atravessada por tantos todos os dias, mostra o seu segredo, revelando a matriz de um fantasiar que se exprime pelos caminhos da pintura. Esta que, em Henrique, assume frequentemente o tom intenso de um violeta, de um amarelo, de um azul, cores que Henrique diz ver na breve passagem da vigília ao sono, quando as inibições da razão deixam lugar para a liberdade do fantástico, e quando por um breve momento se pode colher o princípio de uma realidade que se converte em sonho. O sonho de Henrique, entretanto, não tem um exato início. Devaneio e lucidez ao mesmo tempo, assim é o seu modo de ver Roma, as suas pedras, ou uma pequena fenda inscrita pelo tempo no travertino de uma cidade que ainda não se cansou de fazer sonhar.
Henrique Luiz de Carvalho, natural de Cristiano Otoni, vale-se do pouco tempo que dispõe nos intervalos do trabalho para dedicar-se à arte.
Cheio de vontade e intuição, ele não se poupa para a realização do seu ideal: ser um bom artista.
E vem se firmando a cada dia nessa busca determinada. Frequenta o curso noturno da Escola Guignard há quatro anos tendo como professora e incentivadora a artista Selma Weissmann, entre outros.
Apesar desse pouco tempo de exercício artístico, Henrique já possui um bom currículo, contendo participação em exposições coletivas de galerias conceituadas e presença nos salões de arte da Aeronáutica, Usiminas e outros.
No próximo dia treze de agosto, Henrique faz sua primeira individual na galeria do Minas Um, onde vai apresentar sua recente série de pinturas.
O catálogo/convite conta com a seguinte apresentação da crítica Mari’Stella Tristão:
Constante, metódico e disciplinado, Henrique Luiz de Carvalho vem gradativamente conseguindo avanços consideráveis em sua prática artística. Essencialmente figurativo no início, a fase atual vai-se decompondo até a mais pura simplificação, sem, contudo, fugir das suas bases formais. O girassol, por exemplo, aqui assume proporção gigantesca; ali, desfolha-se para ser apenas miolo, oferecendo até mesmo um aspecto abstratizante. A isso, junta-se a matéria generosamente texturizada, em cores sóbrias, finalizando um bom resultado para a pintura. Henrique aproveita o espaço com sabedoria e trabalha igualmente os fundos e os elementos das composições. A obra de Henrique Luiz finalmente não se alterou por completo, apenas cresceu e assumiu nova feição.